UNIVERSO EM VOCÃÂ
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domingo, 28 de junho de 2009
terça-feira, 24 de junho de 2008
ESCOLA PÚBLICA


Domingo de sol, mas a brisa soprava fresca na redondeza. Pedrinho acordara cedo para ir ver a roça e Ritinha já começava os preparativos na cozinha. Matou duas galinhas, que estavam há dias no chiqueiro para limpar e engordar. Na roça é assim: As galinhas são criadas soltas, mas quando chega a época de abater, colocam num galinheiro, que chamam de chiqueiro, que é para limpar, ou seja, livrar das impurezas que tenham comido pelo mato afora. Durante essa quarentena a alimentação é dobrada, com restos de comida e milho, para engordar. É muito comum se ouvir um vendedor de galinha dizer: “- É gorda de chiqueiro”, se referindo a esse modo de tratar.
Por volta das dez horas começam a chegar os primeiros fregueses, uns à pé, outros à cavalo, de bicicletas e até motos. Os cumprimentos de praxe, perguntas pelas famílias, pelas roças e pela criação. Notava-se entre eles um ar de satisfação, motivado pela razoável quantidade de chuvas caídas na época. As roças estavam em plena produção, os açudes cheios, o pasto no ponto certo e os animais gordos, com as vacas produzindo bastante leite. Mané ferreiro disse que trabalhou a semana inteira batendo enxada, foice, chibanca e outros ferros. Pedrinho já colocara os copos na mesa e abria uma garrafa de cachaça. Na primeira rodada chega Chico da Barra, que vai logo se abancando e pegando um copo, após os cumprimentos, quando Zuzu pergunta pelas novidades.
- E aí, compadre Chico, como tão as coisa?
- Tão que nem carne da pá, nem boa nem má!
- Como vai o movimento lá na cidade?
- Ih, compadre! É uma caristia só, mas o pió é o pobrema dos nosso fio nas escola!
- Pobrema como, compadre? As escola fechou?
- Não, mas quaje! Vocês se alembram que no fim do ano as muié foram fazê as matrica pra mode os menino estudá. Tinha vaga pra todo mundo. Adispois foi atrás de condução. Até aí tudo bem, só que as escola num tão foncionando direito nem os transporte tem todo dia. Acho que as prefeitura num tão recebendo dinheiro pra mode manter as despesa. Meu arreceio é que os fio da gente fique sem estudar, que nem nós. Naquele tempo num tinha escola, nós aprendia no sítio com uma professora particular, durante seis mês e pronto. Leu, escreveu e fez as quato operação, era bastante. Mas eu num quero isso não. Quero vê, pelo menos, um deles dotô. A coisa num tá boa. O governo garante que tem vaga, mas num tem professora, num tem carteira, nem condução. A situação do póbe é sempre a merma, viver na miséra. A gente só pode esperar por Deus.
Os outros concordam e lamentam a situação, ingerindo uma “talagada”, como para afastar os pensamentos ruins. Zé do Pacuti, que ficara calado, após tomar um gole, falou:
- Meus amigo, isso num tá acontecendo só aqui, não! É no Brasil inteiro. Nas cidade grande, quem tem dinhêro, paga transporte pros fio e as escola particular. Quem num tem, tem que se sujeitá a andar à pé e percurá escola perto de casa. Agora veja a diferença dos transporte: Nas cidade só pode andar de carro fechado, com segurança, fiscalizado pelo DETRAN e com licença das prefeitura. Agora, pra quem mora na roça que nem nós, as prefeitura contrata camioneta D-20 e ¾ (F-4000). Adispois coloca uns banco de madeira, cobre com uma lona, fazendo igual aos pau-de-arara, do tempo antigo, que carregava gente pra São Paulo. Aquele monte de estudante, em riba desses carro, sem segurança nenhuma, arrisca a vida todos os dia. A gente fica em casa rezando, pedindo a Deus pra que eles chegue direitin. Vez por ôta a gente tem as notiça de desastre. Um tempo desse, aqui bem pertin, um desses transporte bateu em outro e morreu 13 estudante, que vinha em riba desses carro. Na hora todo mundo reclamou, as autoridade fizeram discusso, até o governadô apareceu, prometendo que isso ia mudar. E cadê? Três ano adispois, continua do mermo jeito. Nos interiô, do Brasil afora, continua do jeito que era. Os pai só dorme quando os fio chega. A mãe num solta o terço, rezando pra virge Maria cuidá deles. As prefeitura recebe dinhêro, mas ninguém sabe pra onde vai. Sabe o que tá acontecendo? A merma coisa que aconteceu com nós: aprendê em casa e ficá sem istudá, porque os pai num tem corage de ver os fio arriscando a vida nos pau-de-arara. Até os menino diz que num qué morrê cedo e continua tudo na roça.
Nesse momento Chico da Barra intervém:
- Mas compadre, lá na cidade tão dizendo que o governo federá, vai comprá um monte de bicicreta pra dá pros estudante, assim resolve o pobrema do transporte e ainda amióra a saúde dos menino!
Zé toma mais uma, baixa a cabeça, como procurando resposta, e fala:
- E você acha que isso vai arresorvê, compadre? Quanto tempo dura uma bicicreta? Rodando três ou quato légua por dia, no fim do ano tá acabada. E quem vai pagá conserto, pneu e arguma peça que quebrá? Num é uma saída do governo pra se livrá dos transporte? Muitas dessas bicicreta vão sê tomada dos menino, pelos bandido. Todo dia eu vejo na televisão. Na cidade grande ainda tem quem recrame das autoridade, mas nós, nos sitio, é mermo que gritá no meio do mato. A segurança nas escola é nenhuma. Basta a gente passá na frente pra vê o dermantelo. É janela quebrada, porta arrombada, risco de tinta em toda parede, cabra vendendo maconha, briga de aluno, professora apanhando de aluno e num tem quem faça nada. O desvio de dinheiro é grande. Teve um prefeito, lá no Maranhão, que comprô vinte e dois mil quilo de carne pra merenda, justamente nas féria dos aluno e a nota fiscá tava no nome dum empregado do matadô, do pai do presidente da câmara dos vereadô, conhecido como Zé do Bode. As escola desse municipe num tem merenda, cartêra, professora e as turma aprende na merma sala, tudo junto, com a merma professora. Transporte? Isso nem se fala. É no onze mermo. (onze é uma forma de dizer que é à pé – as pernas formam o número 11). Tudo vai continuá assim inté que a gente aprenda a votá num político honesto. Nós paga imposto de tudo, mas na hora de vortá pra nós, a verba desaparece. A arrecadação aumenta todo mês, mas o governo qué criá mais imposto, dizendo que num ta dando. Eles tão lá, os senadô, os deputado, os ministro, tudo no bem bom. A despesa de um deputado dava pra construir muitas escola e pagá muitos professô num ano, mas não, eles tem verba para comprá palitó, gasolina, muitos assessô e ainda, se a madame num gostá do apartamento do governo, tem verba pra pagá alugué de casa. E quem paga isso? Nós. Um dia desse um deputado falô que os pobe num pagava CPMF. Ele pensa que nós semo idiota. Deputado, nós num paga direto no banco, mas os comerciante coloca nas mercadoria que a gente compra. No fim sai do nosso bolso. Nós samo da roça, mas num samo besta não. Nós vamo continuá pagando e as escola vão continuá sem merenda, cartêra, professora, transporte, segurança e quem se arriscá ir nos pau-de-arara, continuá morrendo. Se nós quizé vê um fio formado, vamo tê que rezá muito. Inleitô anarfabeto é que nem burro de tropa, vai pra onde o tropêro mandá e aí os político aproveita. É aí que eles aparece e conquista o coitado, fazendo favô. Uma feirinha aqui, uma reforma na casa ali, uma geladêra acolá, duas caçamba de terra na estrada da roça e assim por diante. Desse jeito os coitado fica tudo inludido, pensando que receberam favô. Num sabe eles que quem deve favô é o político que recebeu o voto.
Nesse momento o ambiente é invadido por um aroma inconfundível de galinha guisada e Ritinha grita lá de dentro: - Pedim, tá pronta! – Pode trazê! Responde. Logo ela entra com uma bandeja com a galinha e farofa de cuscuz, interrompendo a conversa dos fregueses.
- Eita muié pra conzinhá bem essa sua Ritinha, Pedim! Falou Ciço.
- Aprendeu com dona Luzia, a mãe dela, que faz uma galinha com feijão verde pra ninguém botá defeito. Foi isso que me pegô!
Ritinha lança um olhar de reprovação para Pedrinho e a turma cai na gargalhada.
No meio dos comes e bebes, Mané Ferreiro falou: - Compadre Zé tem razão, ou nós aprende a votá ou vai continuá do mermo jeito a vida toda.
- É verdade, compadre! Mas um dia a gente chega lá. Vamo começá insinando a nossos fio, que um dia esse Brasil muda!
A conversa se prolonga até mais tarde, até que todos se retiram para suas casas, com a esperança de que seu filhos mudem a paisagem política do nosso país, já que eles não conseguiram até agora. A esperança é a última que morre e esses homens sofridos, de mãos calejadas, nunca a deixaram morrer.
Petronilo Filho
João Pessoa, 24/06/08
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
O MATUTO NO BANCO

Durante os anos de 1976 a 1979 as chuvas no Nordeste foram dentro da média. Naquela época o bicudo ainda não tinha aparecido e a lavoura principal era o algodão. O Banco do Brasil era o principal agente financeiro do agricultor e os créditos eram mais fáceis do que hoje. Havia empréstimo para tudo. Os principais eram os chamados “melhoramentos”, destinados a investimentos na terra, principalmente cercas, o custeio agrícola, que era destinado ao plantio e trato das lavouras e o comercial, para as despesas mais urgentes. Foram anos de fartura e dificilmente se via um agricultor inadimplente.
Foi nessa época que fui nomeado para ser supervisor da agência, em instalação, na cidade de Conceição-PB. O movimento começou devagar, mas logo foi crescendo e em pouco tempo tínhamos uma grande clientela e chegamos a mais de trinta funcionários. Na época das propostas da Carteira Rural era um sufoco; a agência enchia de clientes e tínhamos que pedir reforço à Direção Geral que socorria mandando funcionários adidos.
Os financiamentos de custeio eram para plantar algodão, milho e feijão. O algodão era logo vendido depois da colheita, o milho e o feijão eram armazenados para o consumo e o excedente seria vendido à medida das necessidades. Com a venda do algodão o agricultor comprava de boi magro, jogava na roça, para aproveitar a folha do algodão, que era uma excelente ração. No final do ano vendia uma parte dos bois, pagava o custeio e sobravam algumas cabeças para aumentar o rebanho. Porém, aqui e ali, um deles se atrapalhava com os cálculos e tinha que recorrer ao banco para sanar a situação. Foi numa dessas que certo dia aparece um senhor baixinho, de cor negra, cabelos bem grisalhos, com o chapéu cobrindo o peito (é uma maneira que o roceiro tem para demonstrar respeito) e disse que queria falar com o gerente. O colega que o atende faz as perguntas de praxe:
- O que o senhor deseja?
- Fazê um cumerciá!
- O nome do senhor?
- Sebastião Carneiro de Arruda
- Sítio?
- Sítio Carranca, manicipe de Santana de Mangueira!
-Aguarde só um instantinho!
O colega vai ao arquivo pega o dossiê e a ficha cadastral e leva ao gerente(na época era Paulo Oliveira Lima), que em pouco tempo chama o “seu” Sebastião. Ele entra, cumprimenta o gerente, e se senta.
- O senhor quer fazer um comercial para quê?
- É que chegô a hora de pagá o agrica e os boi inda num tão bom de vendê. Intão me dissero que fazeno um cumerciá dava pra mode aliviá a situação inquanto as coisa amiora!
- Tudo bem. Vamos ver o que podemos fazer!
Paulo olha a ficha, o dossiê, pergunta quem são os avalistas, manda preencher a promissória e sai tudo dentro do figurino. Seu Sebastião volta com a promissória assinada, a operação é realizada, o custeio liquidado, e ele sai satisfeito do banco, com um sorriso de um lado ao outro.
Cento e vinte dias depois vence o comercial. Passam os dias e seu Sebastião não aparece. Um aviso de vencimento é expedido e nada. Depois vai um recado pelo fiscal para ele comparecer à agência e chega seu Sebastião, olhos grandes e bem abertos, chapéu no peito, com ar de espantado e pergunta o que o gerente quer.
- Seu Sebastião, o comercial venceu e o senhor não veio pagar!
- Cuma pagá se eu num tô deveno?
- O senhor não estava devendo o agrícola?
-Tava sim sinhô, mas num paguei cum o comerciá?
- É, mas o senhor tem que pagar o comercial!
-Cuma pagá se num levei o dinhêro? O dinhêro ficô no banco!
Foi um Deus nos acuda. O gerente tentando explicar que ele estava devendo e o seu Sebastião afirmando que não. Eu, o outro supervisor e o gerente adjunto tentamos, a todo custo fazer seu Sebastião entender, mas foi em vão. Para se resolver à questão tivemos que mandar chamar seus filhos, que venderam o gado e liquidaram a dívida, sob os protesto do pai, que foi obrigado a passar uma procuração para um deles e nunca mais pôs os pés na agência.
Petronilo Pereira Filho
João Pessoa-PB 2005-11-23 Aposentado
Foi nessa época que fui nomeado para ser supervisor da agência, em instalação, na cidade de Conceição-PB. O movimento começou devagar, mas logo foi crescendo e em pouco tempo tínhamos uma grande clientela e chegamos a mais de trinta funcionários. Na época das propostas da Carteira Rural era um sufoco; a agência enchia de clientes e tínhamos que pedir reforço à Direção Geral que socorria mandando funcionários adidos.
Os financiamentos de custeio eram para plantar algodão, milho e feijão. O algodão era logo vendido depois da colheita, o milho e o feijão eram armazenados para o consumo e o excedente seria vendido à medida das necessidades. Com a venda do algodão o agricultor comprava de boi magro, jogava na roça, para aproveitar a folha do algodão, que era uma excelente ração. No final do ano vendia uma parte dos bois, pagava o custeio e sobravam algumas cabeças para aumentar o rebanho. Porém, aqui e ali, um deles se atrapalhava com os cálculos e tinha que recorrer ao banco para sanar a situação. Foi numa dessas que certo dia aparece um senhor baixinho, de cor negra, cabelos bem grisalhos, com o chapéu cobrindo o peito (é uma maneira que o roceiro tem para demonstrar respeito) e disse que queria falar com o gerente. O colega que o atende faz as perguntas de praxe:
- O que o senhor deseja?
- Fazê um cumerciá!
- O nome do senhor?
- Sebastião Carneiro de Arruda
- Sítio?
- Sítio Carranca, manicipe de Santana de Mangueira!
-Aguarde só um instantinho!
O colega vai ao arquivo pega o dossiê e a ficha cadastral e leva ao gerente(na época era Paulo Oliveira Lima), que em pouco tempo chama o “seu” Sebastião. Ele entra, cumprimenta o gerente, e se senta.
- O senhor quer fazer um comercial para quê?
- É que chegô a hora de pagá o agrica e os boi inda num tão bom de vendê. Intão me dissero que fazeno um cumerciá dava pra mode aliviá a situação inquanto as coisa amiora!
- Tudo bem. Vamos ver o que podemos fazer!
Paulo olha a ficha, o dossiê, pergunta quem são os avalistas, manda preencher a promissória e sai tudo dentro do figurino. Seu Sebastião volta com a promissória assinada, a operação é realizada, o custeio liquidado, e ele sai satisfeito do banco, com um sorriso de um lado ao outro.
Cento e vinte dias depois vence o comercial. Passam os dias e seu Sebastião não aparece. Um aviso de vencimento é expedido e nada. Depois vai um recado pelo fiscal para ele comparecer à agência e chega seu Sebastião, olhos grandes e bem abertos, chapéu no peito, com ar de espantado e pergunta o que o gerente quer.
- Seu Sebastião, o comercial venceu e o senhor não veio pagar!
- Cuma pagá se eu num tô deveno?
- O senhor não estava devendo o agrícola?
-Tava sim sinhô, mas num paguei cum o comerciá?
- É, mas o senhor tem que pagar o comercial!
-Cuma pagá se num levei o dinhêro? O dinhêro ficô no banco!
Foi um Deus nos acuda. O gerente tentando explicar que ele estava devendo e o seu Sebastião afirmando que não. Eu, o outro supervisor e o gerente adjunto tentamos, a todo custo fazer seu Sebastião entender, mas foi em vão. Para se resolver à questão tivemos que mandar chamar seus filhos, que venderam o gado e liquidaram a dívida, sob os protesto do pai, que foi obrigado a passar uma procuração para um deles e nunca mais pôs os pés na agência.
Petronilo Pereira Filho
João Pessoa-PB 2005-11-23 Aposentado
terça-feira, 14 de agosto de 2007
CONVERSA DE MATUTO III - A Transposição

Era final do primeiro semestre no sertão. O mato ainda verde, açudes com pouco mais da metade de água e a criação mais ou menos gorda. A paisagem apresentava a beleza do sertão, no final do inverno, que quando vem em abundancia transforma todo o sertão em um quadro de rara beleza, com agricultores satisfeitos, aves cantando e o fenômeno anual da chegada dos bandos de arribaçãs, que nessa época vêm se alimentar das sementes produzidas nas caatingas nordestinas.
O inverno, é assim que o sertanejo chama o período das chuvas, tinha sido irregular. A colheita da lavoura havia se perdido em boa parte. Chuvas fora de época acumularam água nos açudes e mantiveram o pasto verde, criando alimentação para o gado, e as ovelhas, que daria para sustentar alguns meses. Era a seca verde.
Foi num dia desses, domingo, dia claro, céu azul com o sol brilhando intensamente, que os amigos se reuniram, como faziam todos os domingos, na bodega de Pedrinho. Para eles, homens trabalhadores, era o dia mais esperado para botarem a conversa em dia e esquecer os dias duros na roça, com umas boas bicadas de cachaça.
Chico da Barra chega e já encontra todo mundo no maior bate-papo.
- Bom dia!
- Bom dia cumpade Chico! Demorô um pôco – falou um deles.
- É cumpade Ciço; é qui eu tive de ajeitar u’as coisinha lá in casa. Você sabe, a invernada num foi boa pra lavora e a gente tem de se virá mode num passá aperrêi.
- O cumpade foi inté na rua essa sumana, nun foi? Trove argu’a nuvidade?
- Ah, cumpade, truve sim. O qui si fala, pur u’a boca só e nu’a tar di transpusiçao, qui vai sarvá nois. Se esse negóço foncioná mermo o sertão vai mudá, mas mudá pra muito mió.
- Ispilica isso mió cumpade, pra nóis intendê dereito – falou Zuzu.
- É o siguinte: Os político, junto cum o guverno federá, tão lutano mode trazer água do río São Francisco, mode agüar o sertão e acabá cum a seca no Nordeste. Tem um senadô, aqui de nóis, que ta lutano cum unhas e dente mode isso saí dos papé pra as obra. Eles vão cavá u’as levada bem grande e tirá as água do São Francisco e jogá nessas levada, qui vai chegá nos rio seco dos sertão. Daí é só o agricutô usá essa água. Tombém as cidade vão tê água incanada e ninguém mais vai passá sede. Oia meus amigo, tão dizeno qui nós nun vamo mais passá fome e qui vamo tê ligume o ano intero. Parece qui as proficia do Biato vai chegá: O sertão vai virá mar. Nun vai sê u’a beleza?
Todos aprovaram e elogiaram a iniciativa do governo. Finalmente uma esperança para o sofrido sertanejo, que luta contra a fome e a miséria há séculos. A seca seria coisa do passado.
O clima de alegria contagiou a todos, que já faziam planos para o futuro. Somente Zé do Pacuti não parecia tão entusiasmado, o que foi percebido por Chico da Barra.
- E aí cumpade Zé, qué qui você acha disso tudo, nun vai sê bom?
Zé toma um gole, pigarreia, dá uma bicada no copo de caldo de feijão verde, bem temperado com coentro e nata, e fala com calma:
- Cumpade Chico, quando eu era piqueno meu avô dizia qui o pai dele já falava nessa cunversa de mode trazê água do rio São Francisco. Ele dizia que o imperadô Dom Pêdo, prometeu qui vendia inté as jóia da coroa, mas os irmão do Nordeste num passava fome. Já faz mais de cem ano, a coroa ta lá num tar de museu, cum todas as jóia e o sertanejo sofreno os aperrêi da seca. O Nordeste tem muitos açude e cum muita água, qui se fosse usada dereito num tinha tanta fome. O açude de Orós, no Ciará, é um dos maió das redondeza e num dêxa o rio Jaguaribe secá. O de Curema, aqui perto de nóis, esbastece o rio de Piranha, faz mais de setenta ano, sem contá, aqui bem pertim, cum os açude São Gonçalo, Buquerão e Lagoa do Arroz. Arrepare bem: nas bêra desses rio munta gente ainda passa fome, mermo cum munta água na porta. Nas bêra do São Francisco num é munto deferente. Todo ano tem reportage na televisão falano da fome na Baía, Minas, Pernambuco, Alagoa e Sergipe. Todos esse estado fica na bêra do São Francisco e a miséra continua lá derna de muito tempo. O pobrema num é trazê a água, é insiná cuma se aproveita. Vamo vê: O rio de Piranha, derna de Curema inté a divisa cum o Rio Grande do Norte, passa pelas cidade de Pombá, Paulista e São Bento. Nas bêra do rio num tem ninhum agricutô rico; a maioria é piqueno qui nem nós. As agricutura qui se pranta inté lá é mode sustentá as famia e o gado de criação deles. Quando chega no Rio Grande a coisa muda de figura pru mode qui o guverno de lá já ajuda arguns agricultô, orientado pelos agrome da Imaté. Lá tem região qui ta vendeno fruita pra fora, inté pra ôtos país.
Na bêra do São Francisco, no sertão de Pernambuco, tem muita coisa prantada, e os agricutô tão fazeno vinho, da mió qualidade, e vendeno fruta pras Oropa, só qui isso num vem do guverno, são os home rico do sú que truvero dinhêro, compraro terra e começaro a produzí. Os piqueno veno aquilo começaro a fazê o mermo, mas cuma num tinha capitá fizero acordo cum os rico mode vendê a produção pra eles. Continuaro vendeno prus atravessadô. Meus amigo, essa histora de sarvação do Nordeste é coisa véia, qui vem seno apromitida de muntos e muntos ano. Inté hoje só quem se saiu bem cum isso fôro os político, cum a famosa industa da seca.
Um dia desse, minha fia qui istuda na capitá, na casa do meu primo Damião, vêi passiá aqui e trove um jorná cu’a notiça triste. Cuma eu sou fraco de leitura ela leu pra mim: Jorná Corrêi da Paraiba, 10 de junho de 2001; água bundante num agarante produção. Falava de um agricutô qui morava na Acauã, no finá do caná da redenção, aquele qui foi feito vindo do açude Curema inté nas várzea de Sousa, qui andava 18 quilome toda sumana na bêra do caná e num via um pé de nada prantado. O pió era de u’a muié qui morava na bêra do caná qui vem da lagoa do arroz, in Cajazeira, qui só usava a água pra mode bebê, tumá banho e lavá rôpa. E sabe a distânça da casa pro caná? Só cinco metro. Isso qué dizê: pôco mais de duas braça. Essa muié, apusentada, morava cum a fia e um genro. Todo mês ela ia pra Cajazeira recebê o dinhêro do apusento e comprava ôvo, verdura e frango de granja. O reporte preguntô pru mode qui ela num prantava e criava galinha, ela arrespondeu: Eu vô comprá in Cajazera pruquê o ônibu passa na minha porta e num dá nada de trabaio. Assim são muitos. Tem a riqueza na porta e num sabe o qui fazê. Nessas cidade adonde o rio passa é u’a coisa triste. Nos domingo se monta u’as barraca, puxa uns fio dos poste, liga um som, leva u’as caxa de gelo e munta bibida. O forró, qui aquilo pra mim nunca foi forró, come no centro. Mais tarde é tanto nêgo bebo, agarrado cum as muleca bêba, dançano na arêa. No finá do dia o qui sobra é munta garrafa e lata di bibida dento do rio. Fica mais pareceno o munturo das casa qui num tem lixêro.
Meus amigo, butá água na porta desse povo sem istrução é cuma cachorro qui corre atraz di carro: quando o carro pára, ele num sabe o qui fazê. Se o guverno quizé mermo sarvar nós, deve cumeçá insinano os agricutô a aproveitá a água nas lavora, cum assitença dos agrome. O cabôco sertanejo é home trabaiadô, mas de tanto aviciado pelos político disonesto, qui só aparece nas inleição, qui faz promessa e dá u’a irmola ele se acomoda e se amofina. Dê sirviço, amostre cuma se trabaia a terra, dê cundição de agüá as pranta, impreste dinhêro, mas fiscalize e cobre adispois. Se jogá água na porta dele vai cuntinuá do mermo jeito: teno água mode bebê, mas seno isplorado pelos rico. Todo mundo cunhece a musga do Rei do Baião qui diz: “Seu dotô, u’a irmola pra um home qui é são, ô li mata de veigonha ô avicia o cidadão”.
Nesse tempo a esposa de Pedrinho chega com uma panela fumegante, com bode cozido e farofa de cuscuz, enchendo o salão com um aroma que fazia jorrar água em qualquer boca.
Pequena pausa para comer e tomar mais uns goles.
- Intão cumpade Zé, você nun tá a favô dessa tá de transpusição não? – falou Mané Ferreiro, já antevendo o trabalho que iria ter com tanta enxada.
- Tô cumpade Mané e vô tá sempre. Isso vai sê a maió bença qui Deus vai mandá pra nós, mas é cuma eu lhe digo: se num orientá o povo nem fiscalizá o trabaio, vai sê mais u’a obra pra mode dá dinhêro pros político. U’a vez eu vi na televisão um cantô cantano u’a musga qui é a cara de nós. A musga falava do sertão, dos sertanejo, da crença qui temo in Deus e nas promessa dos político. No finá ele cantava: “Entra ano e sai ano e nada vem e o sertão cuntinua ao Deus dará”. Essa é a pura verdade. Esse cantô é hoje ministo. Vamo vê se faz arguma coisa pur nós. A fome e a mizéra no Nordeste só vai acabá quando os político fô home de palava e se interessá pela filicidade do povo. Quando as verba chegá intêra na obra e se acabá cum as tá de caxinha, aí sim a coisa vai amiorá, mas amiorá muito.
- E nós num pode fazê nada, né cumpade! – falou seu Abdias.
- Pode cumpade! Nós temo as arma pra mode acorrigi tudo isso.
- Qui arma cumpade, cum o disarmamento num pudemo usá nem ispingarda, ta doido?
- Não seu Abdia, num é essas arma qui tô falano não; é o tito de inleitô. Essa é a maió arma qui temo pra mode mudá tudo isso.
- E cuma vamo fazê?
- É o siguinte: se nós se ajuntá, todo mundo, e num votá in ninhum político qui tá no pudê, aí nós acaba cum a bandaiêra nesse Brasí. Nós avisa logo pros qui tão chegano: si fizer bestêra nós num vota mais in você. Adispos qui nós trocá todos os político, deputado, senadô, guvernadô e tudo qui num fizé dereitin, eles vão aprendê e a coisa muda pra mió. Já vão ficá avisado: Se robá perde o imprego. Vamo acabá cum esse negóço de voto di favô. Eles num tão fazeno favô ninhum pra nós, nós é qui tamo dando imprego pra eles. Nós samo os patrão, intonce nós é quem tem voz ativa pra eles. Nós é quem deve mandá, eles obedecê.
Todos ficaram se entreolhando com um ar de admiração e aprovação. Nunca ninguém havia dito tantas verdades. Jamais alguém havia aberto os olhos daquela gente que só tinha esperança em Deus e nos políticos. Nunca puderam imaginar que uma pessoa, nascida e criada na roça, que mal sabia assinar o nome, tivesse tanta sabedoria.
Chico da Barra quebrou o silêncio:
- É mermo, o cumpade Zé tem toda razão, nós é qui somo uns abestaiado, mas vamo mudá isso. Na primêra inleição eu vô amostrá pra esses cabra cum quantos pau se faz u’a cangáia.
- E nós tombém, num é pessoá? – falou Toinho de Cirilo.
- Éééé! Gritaram todos.
A essas alturas Pedrinho já estava gritando para Toinha, sua esposa, para trazer outra panela de bode com farofa de cuscuz, temperada com o caldo do bode, cebola, tomate e coentro, tirados da pequena horta no quintal de casa, enquanto abria mais uma garrafa da “danada”, para alegria geral.
Naquele dia foi dado o primeiro passo para acabar com a miséria no Nordeste e a corrupção no Brasil. Nascia ali a campanha de esclarecimento que poderia mudar um quadro secular, sem violência, dentro da mais pura democracia. Era o eleitor exercendo seu direito de cidadão. Era a esperança nascendo, de novo, nos corações das pessoas mais sofridas e discriminadas no Brasil, mas com muita força e fé em Deus.
Petronilo Pereira Filho
João Pessoa, 2005-05-12
CONVERSA DE MATUTO II - Desarmamento

Chico da Barra sempre ia à cidade para fazer feira, visitar parentes, levar uma galinha, gorda de chiqueiro, para um amigo, vender alguma criação ou produtos de sua roça.
Gostava muito de conversar e sempre se demorava numa rodinha de bate-papo, sobre qualquer assunto. Era conhecido como um homem prosador.
Zé do Pacuti era mais ponderado, vivia mais da roça para casa, onde, antes do advento da TV, se deitava numa preguiçosa, para ouvir notícias e forró pé-de-serra, no seu rádio ABC-Canarinho-A Voz de Ouro, comprado com o produto da venda de algumas ovelhas.
Quando a energia elétrica chegou ao seu sítio, por democrática pressão da mulher e dos filhos, vendeu uns bichinhos e comprou uma televisão, com parabólica e tudo, num consórcio que apareceu por lá, em 10 pagamentos sem juros. Todo mês se vendia um porco, uma ovelha, um garrote e se deu um jeito até terminar a dívida. No começo ele achou meio esquisito porque nunca aparecia sanfoneiro dos bons e nem violeiros, seus programas preferidos (No Terreiro da Fazenda, na Rádio Alto Piranhas e Violas e Violeiros na Rádio Rural de Caicó). Mas logo passou a ver telejornais, Canal do Senado, da Câmara, Globo Rural e concluiu que fizera um bom negócio. A rotina continua e, como sempre, no domingo o bate-papo na venda de Pedrinho era sagrado. Todos gostavam de ouvir suas opiniões, sempre arrematadas de sabedoria, apesar de ser um homem iletrado.
Chega o Domingo e Zé, após o programa Globo Rural, toma o banho, sela a burra “Melada” e se dirige à venda de Pedrinho. Ao chegar amarra o animal, junto com os outros, debaixo do pé de cajarana (no sertão são raras as casas que não têm um pé de cajarana no terreiro), afrouxa a cilha, guarda as esporas e se dirige à casa, saudando a todos ao entrar: - Bom dia pra todo mundo!
- Bom dia cumpade Zé (na roça todo mundo é compadre), responde o coral que era composto de Pedrinho, João de Seu Né, Joca Malaquias, Toinho de Cirilo, seu Abdias, Mané ferreiro, Zuzu, Tião de Elias e Ciço de Fausto.
- Cumpade Chico da Barra inda nun chegô?
- Tá chegano; daqui tô uvino as pisada do animá dele.
- Intonce bote u’a bicada pra mode alimpá a güela!
Enquanto Chico da Barra amarra seu animal, a conversa se restringe a perguntar pelas comadres, afilhados, recomendações às famílias e sobre a saúde dos mais velhos.
O Chico entra e se repete o ritual de saudações e boas vindas, enquanto Pedrinho põe mais uma bicada para o recém chegado.
Quem inicia a conversa é Mané ferreiro, mãos calejadas de acionar o fole e bater o malho na bigorna, no acabamento de enxada, foice e armador de rede.
- Cumpade Chico, nuvidade pela rua?
- É cumpade Mané, tem! O qui eu uvi pru lá é de u’a leis, qui vem loguin, mode acabá cum u uso de arma di fogo, de quarqué qualidade. Quem fô incrontado armado vai preso. Diz-se qui vão tumá inté as ispingarda.
- Ôxente cumpade, inté as de soca-soca?
- Tombém cumpade; si é impruibido caçá num carece di ispingarda. Si nóis quizé cumê um preazin, galinha dágua, marreca ô ribaçã, tem qui sê no fôjo ô arapuca. Agora o negóço é séro; pegô armado, cadêa. Vai sê bom pru mode agora nóis vai pudê andá sem sobrosso. Do jeito qui tá num tá dano certo não. Todo mulequin tem um revorve ô u’a pistola. Pru quarqué mutivo manda bala. Ninguém arrespeita mais ninguém. Mas agora vai amiorá, si Deus quizé. Cabra qui andá armado agora si oriente. Inté as fábrica do país vai sê controlada pelo guvêrno. Pôcas pessoa vai pudê comprá arma, e assim mermo si tirá licença. Pedin, mais ôta.
Todos passaram a comentar a nova lei, elogiando o governo e acreditando que essa seria uma medida certa para diminuir a violência. Somente Zé do Pacuti permaneceu calado. Foi o próprio Chico quem o abordou:
- E aí cumpade Zé; qué qui cê acha disso? Num vai amiorá?
Zé faz um sinal para Pedrinho, mostrando os dedos, polegar e indicador, fazendo u’a abertura de 4 a 5 centímetros, que logo foi correspondido com um aceno de cabeça. Ele pedia outra lapada, no que foi atendido. Tomou um gole e tirou o gosto com uma cajarana madura e pigarreou. A expectativa era geral e ele inicia, com aquela calma peculiar ao homem da roça:
- Cumpade Chico! Inquanto cê falava eu mi alembrava do finado meu pai, que Deus o tenha (levanta o chapéu em sinal de respeito), qui dizia: Crêa in Deus qui é santo véio. Vai sê munto bom, si foncioná.
- Qué isso cumpade? Cê num acridita não?
- Pru mode qui eu havera di acriditá? Arrepare bem cumpade: Todo dia ispio na televisão os deputado e os senadô, fazeno e votano leis, qui quage tudo fica só nos papé. É leis pra isso, é leis praquilo e praquilo ôto. Quando tem u’a qui é a favô dos pobe, demora um monte di ano pra mode chegá. Cumpade, o guvêrno pode controlá as fábrica do Brasí pru mode qui ele tem cuma fiscalizá pelos livro. Ele pode invitá a venda de revorve, pistola e ispingarda. Mas cuma vai controlá as venda dos ôto? Hoje in dia quem pissuí essas arma é mermo qui nada. O qui mais si vê é u’as tar de metraiadôra, granada, fuzí qui dispara quage mil tiro pru minuto, um tar de erre quinze(mas acerta vinte). Tem arma qui dirruba inté avião. Os cabra tão mais armado qui a puliça e o inzelço. E donde vem essas arma? Do contrabando. O Brasí tem num sei quantas légua di frontêra cum ôtos país, quage sem fiscalização. Ôto dia foi preso um vendedô di rede, qui virô assartante, qui falô qui trôve um fuzí du Paraguai, na camioneta, debaxo das rede. Pra comprá e trazê é a coisa mais fáci. Num tem tanto fiscá pra tanta gente. Isso insfacilita a bandidage. Num adianta fazê leis si num tem quem fiscalize. A coisa tá tão fáci pros bandido qui tem inté gente qui veve di alugué di arma. Do jeito Qui nóis aluga um tratô mode cortá as terra, eles aluga arma mode assartá. Agora é qui eles vai ficá mais afoito. Eu tô inté pensano nos veinho qui vai pra rua arrecebê o dinhêrin do aposento. Vão tumá tudo no mêi da istrada. As arma qui esses cabra usa é tudo istrangêra; da Améica du Norte, di Israé, da Russa... do Brasí é qui num tem. E aí, quem vai controlá a vendage dessas arma?
Nessa hora seu Abdias interrompe:
- Ô cumpade, parece qui ocê tá contra? Num vai sê u’a coisa boa?
Novo sinal para Pedrinho, nova bicada e atenção voltada para Zé.
- Não cumpade Abdia, eu num sô contra, sô munto a favô, mas só tem um jeito pra mode dá certo! Parecia que haviam ensaiado, mas todos perguntaram ao mesmo tempo:
- I qualé cumpade?
Calmamente Zé toma sua bicada, chupa outra cajarana, enquanto a buchada não vem, e retoma a palavra:
- Meus amigo i cumpade, cês sabe qui eu num sô homi di letra, pru mode meu finado pai, qui Deus o tenha, num tê cundição di mim mandá pra iscola. Só aprindi fazê meu nome e u’as continha. Tombém pra midí braça di cêica e carculá arrôba di boi, inté qui num foi difíci. Mas u’a coisa ele sempre dizia: Si Deus deu pra nóis dois uvido, dois ôio e u’a bôca, é pra nóis iscutá munto, ispiá munto e falá pôco. É purisso qui eu fico qui nem caboré, só prestano atenção. Apois bem, hoje in dia a moçada nova acha qui o bom da vida só é festa e rôpa bunita. Munta gente qué tê um bom imprêgo, mas trabaiá qui é bom, nada. Nos tempo antigo só tinha as quato festa do ano: Carnavá, Sumana Santa, a Padroêra e o Natá, imendano cum o ano novo. No carnavá nóis ia na rua só ispiá os broco na rua. Eu num gostava munto pru mode que tinha medo di papangu e do mela-mela. Na sumana santa nóis ia pra igreja rezá e adispois matá o juda. Na festa da padroêra era mió: tinha leilão, quermessa, carrocé e munto cumê. No natá a missa do galo e no ano novo a missa da passage, adonde nóis aproveitava pra ispiá pras minina, piscá os óio e vê os amigo qui morava mais longe. Nos sítio nóis tinha as farinhada, pra cumê bejú, os ingém di rapadura, pra puxá arfinin, tumá garapa e cumê rapa di gamela. Ô intão as disbuia di feijão, cum monte di canjica, pamonha e brôa di mio. Vêis pur ôta um forrozin, animado pur Chico Véio tocadô, no terrêro di chão batido e agüado, mode num fazê puêra. Hoje tá tudo deferente; os forró num tem mais sofona, nem zabumba, nem pandêro e nem triângu. É um magote de cabra cuns braço chei di pintura, brinco nas urêa, nos óio e u’as cabôca cum u’as sainha bem piquinininha, si rebolano, amostrano a bunda e dizeno qui aquilo é dança di forró. Sabe quem tem mais curpa nisso? Os político. Ispia só: inventaro uns carnavá fora di tempo; é micaroa, micarandi, fortá, carnatá, ricifulia e o diabo a quato. Todo mêis tem festa cum as banda cara. E quem paga? As prefeitura, os político. As vêz dêxa inté di pagá us salaro dos pobe foncionaro, mode pagá essa banda, qui só toca cum dinhêro na mão, pru que num cunfia in ninguém. Aí os pobe fica tudo inludido; compra as rôpa, cara e fiado, mode num perdê a festa. Pra í a essas festa tôda, carece gastá um bucado; e donde tirá a gaita? Termina tirano dos pai, dos avô apusentado e, quando farta, termina robano, assartano e fazeno tudo qui num presta. O qui os político, prefeito, diputado e guvernadô, divia fazê era amiorá as iscola e o aperparo dos professô. Si insinasse prus menino, derna di piquininin, o qui é dereito e errado, arrespeitá o dereito dos ôto, qui o home só é home quando é honesto i trabaidô, a coisa era deferente. O qui acuntece é qui muntos professô e professôra num sabe cuidá nem de seus fio, quanto mais dos fio dos ôto. Tem pai e mãe qui diz qui num tem tempo pra dá inducação pros fio e dêxa pras iscola insiná. Tem casa qui quem manda é os fio. Eles num arrespeita pai, mãe, avó, avô e nem ninguém. Os pai diz que num dá uma parmada pru mode o bichin num ficá tramatizado i crecê inelvoso. É o qui eles qué e assim nunca vai aprendê. Quando eu fazia um má feito, meu pai me dava u’a lamborada cum arriadô di bizerro ô um cipó di marmelêro e dizia pru que tava bateno e insinava cuma era o certo e eu nunca fiquei tramatizado nem inelvoso. Inté hoje eu agradeço ele tê mi insinado assim. Uns diz: mas os tempo mudô! É mudô mermo, purisso que tá essa baraiada doida. Esse negóço di famia num inziste mais não. É cada um pru seu lado e o resto qui si dane. Ocês cunhece Dedé, fio di seu Severino? Ôto dia eu tive lá na Santana e ele tava insinano prus fio dos moradô. Fiquei ali ispiano a manêra cuma ele ispilicava, tudo dereitin, e os minino tudo iscutano cum a maió atenção. Adispôs nóis fiquemo prosiano no arpendre da fazenda e preguntei: Dedé, ôcê mora na rua, istudô, hoje é dotô e nos fim de sumana vem dá escola pra esses minino?. Ele ispiô bem nos meus óio e falô sirrino: - Seu Zé, a inducação é a coisa mais importante pru home. Há 2.500 ano um home falô: Dê inducação pras criança pra num pricizá castigá os adurto.
Eu fiquei sem intendê nada, mas ele ispilicô: - Se nóis aprendê quando é minino, num vamo fazê errado quando ficá home feito. Ai eu intendi tudo dereitin. Eita home sabido! Naqueles tempo já tinha home assim? Cuma o mundo é véio! Ôcês arrepare cuma tá a situação de hoje: as puliça dento dos quarté, cum medo, e os bandido meteno bala pra tudo qué lado. É aquela histora do dia da caça e do caçadô. O caçadô iscondido e a caça fazeno a festa. Bem qui os antigo dizia: a roda grande vai passá pru dento da piquena(palava do Padim Pade Ciço do Juazêro).
Pois é, meus amigo, num adianta criá leis pra mode cunsertá o qui vem dirmantelado de munto tempo. As providênça tem qui sê ugente si não nós num vamo tê o dereito nem de si arreuni aqui in Pedin pra disanuviá a cabeça das preocupação. O remédio é aperpará as criança di hoje pra mode sê os home di amenhã. Nun adianta butá us pôico pra fora da roça si num tapá o buraco da cêica; eles vorta ôta vêis. – Pedin, mais u’a!
Todos acenaram com a cabeça, com ar de aprovação, enquanto Toinha, esposa de Pedrinho, chegava com uma buchada fumegante, cozida na panela de barro, no fogão de lenha.
Joca Malaquias foi quem rompeu o silêncio:
- É cumpade, si nóis num tumá tento nóis cai do cavalo; a coisa mais bunita do mundo é u’a famia arrespeitada.
- É isso mermo cumpade, qui Deus potreja nóis e nossas famia. Falou Zuzu.
- Amém; responderam todos.
Chico acabara de tirar a linha da buchada, todos brindaram e continuaram com o bate-papo, falando de negócios e contando piadas. Foi mais um dia de aprendizado para aqueles homens tão simples e tão cheios de esperança, que confiam sempre na Providência Divina, no porvir de dias melhores.
Petronilo Pereira Filho
João Pessoa-PB 15/11/2003
domingo, 12 de agosto de 2007
CONVERSA DE MATUTO

Drogas
Em toda comunidade rural sempre tem uma vendinha, onde se compram as coisas mais básicas para uma família de agricultores(café, açúcar, farinha, temperos, linha, agulha e outras coisas que não se produzem na roça(principalmente bebidas). Sempre tem uma área com uma mesa e tamboretes, para, nos fins de semana, os fregueses se sentarem para um bate papo, regado a cachaça. O tira-gosto varia de galinha de capoeira, preá torrado, rolinha, nambú e, do segundo ao terceiro trimestre, arribaçã frita na banha de porco(quando os fiscais do IBAMA não aparecem). Tem peixes(traíra, curimatã, corró e tilápia), buchada e mondrongo de porco).
A conversa gira em torno de política, produção agrícola, inverno, criação de animais e preços da safra. Alguns que vão até à cidade, sempre chegam com novidades. Foi o que aconteceu com Chico da Barra, ao chegar na venda, de Pedim de Sinhora, no sítio Timbaúba, para molhar a garganta e encontra Zé do Pacutí:
- Bom dia cumpade Zé!
- Bom dia cumpade Chico! Teve na rua? Arguma nuvidade?
- Tive cumpade, e uví umas conversa que me dexô incabulado.
- E o qui foi qui te dexô incabulado, cumpade? – Falou o Zé com ar de curiosidade.
- É o siguinte: me dissero qui tem um juiz de dereito, lá pas banda do su, defendeno a distribuição de droga(aquelas coisa de cigarro, pó, injeção, qui dêxa o cabra mei doido) e tudo de graça, pru conta do guverno.
- Vixe Maria! Esse juiz indoidô? Nun tá veno qui isso num vai dá certo? Cuma é qui o guverno vai comprá? Dos traficante? Mas a puliça num tá prendeno tudo qui é traficante? Acho qui quem vai indoidá é eu cumpade.
- Bom, o qui dissero é qui no istrangêro, lá pas Oropa, já tão fazeno isso. Se o guverno distribuí de graça ninguém compra dos traficante e a puliça vai tê menos trabáio e o aviciado dêxa de robá, ô inté matá os pai mode pegá dinhêro pra comprá a danada. Eu inté já maginei um jeitim de ganhá um dinhêrim.
- Êhh cumpade. Cuma vai sê isso? Num vai se metê in increnca!
- Vô não cumpade; me iscuta: cuma o guverno vai distribuí as fôia pra fumá, ele vai tê de comprá de quem pranta. Cuma nós semo agricutô nós pranta pra vendê pra ele. Quem sabe inté o Banco do Brasí impresta o dinhêro do custei. Cuma pra vendê pru guverno tem qui tê uma tar de concorrença, eu já pensei in falá cum o deputado federá(aquele qui toda inleição vai na casa de nós pidi voto) mode arranjá um jeitim di cavá uns poço mode aguá as pranta, pois pricisa de aguação. Ele mermo pode inté dá uma mãozinha pra nós vendê o qui prantá, se nós prometê os voto da famía. Dissero qui já tem arguns deputado interessado. Uns diz qui vai gerá imprego i renda. Só assim nós tira o pé da lama.
- Cumpade Chico, o finado meu pai sempre dizia qui irmola grande o cego discunfia. Fiquei aqui maginano no resurtado disso tudo. Cuma é qui o guverno vai pagá essas conta se farta verba pra tudo? As puliça istaduá e fiderá tão in crise pru farta de verba. As estrada tão se acabano, os hospitá num tem remédio, as iscola farta merenda, professô(tombém cum a mizera qui ganha) e cartêra mode os aluno sentá. Os pobe cada vez mais pobe e se acabano de fome. Se nós vai pro hospitá(qui Deus nos livre) as infermêra diz que num tem nem um cachetim pra tumá, pru mode um tar de SUS num tê dado o dinhêro pra pagá as conta. Adispôs disso tudim, donde o guverno vai arranjá dinhêro pra dá droga prum bocado de cabra qui num faz nada? O pió é qui nós dêxa de prantá feijão, arroiz, mio, batata, melancia e girimum pra sustentá nossa famía. Nós vamo comprá a quem, se todo mundo arresorver prantá a tar de “erva mardita”? O nome já tá dizeno: ”MARDITA”. Se isso acuntecê esse tar de projeto fome zero vai se torná “FOMIZERA”. As água dos açude e dos barrêro, qui selve pros bicho bebê, vai tudo secá. Aí nóis tem qui vendê toda criação, as vaquinha, as cabra, as uvêia e inté as galinha. E o poiquim qui a muié ingorda pra nós cumê na virada do ano novo? E aqueles qui tão preso pruque prantava? Será qui num vão atrás de adevogado pra sortá eles? Se num é mais improibido num tem mais crime. E os qui tivero as terra tomada, vão tê de vorta? Vai sê tanta ação contra o guverno cobrano prijuízo. Não cumpade, num me bote nessa não. Prifiro sustentá meus fio do jeitim qui meu finado pai, qui Deus o tenha, mi insinô; cum honestidade, respeito e trabaio dereito. Vô continuá prantano minha rocinha e cuidano da minha criaçãozinha e insinano meus fio a sê gente dereita e nunca dexá a iscola, pois a gente só vale o qui sabe. Eu aprindí qui num se discobre um santo pra mode cubri ôto nem se tapa o só cum u’a penêra. Tem munta famia chorano ainda a perca dos parente qui morrêro pru conta dessa disgraça. Eu num vô fazê parte dessa mardição não. Adispois Deus me castiga. Eu quero é vivê in paz. A corda só rebenta do lado mais fraco. O meu burrim é munto piqueno pra tanta carga. -É cumpade Zé; acho qui você tá certo! Vamo isquecê isso. Pedim, bota mais duas e traga uma buchada de bode pra nós apriciá! Saúde cumpade!
- Saúde pra nós e toda famia brasilêra.
- Bom dia cumpade Zé!
- Bom dia cumpade Chico! Teve na rua? Arguma nuvidade?
- Tive cumpade, e uví umas conversa que me dexô incabulado.
- E o qui foi qui te dexô incabulado, cumpade? – Falou o Zé com ar de curiosidade.
- É o siguinte: me dissero qui tem um juiz de dereito, lá pas banda do su, defendeno a distribuição de droga(aquelas coisa de cigarro, pó, injeção, qui dêxa o cabra mei doido) e tudo de graça, pru conta do guverno.
- Vixe Maria! Esse juiz indoidô? Nun tá veno qui isso num vai dá certo? Cuma é qui o guverno vai comprá? Dos traficante? Mas a puliça num tá prendeno tudo qui é traficante? Acho qui quem vai indoidá é eu cumpade.
- Bom, o qui dissero é qui no istrangêro, lá pas Oropa, já tão fazeno isso. Se o guverno distribuí de graça ninguém compra dos traficante e a puliça vai tê menos trabáio e o aviciado dêxa de robá, ô inté matá os pai mode pegá dinhêro pra comprá a danada. Eu inté já maginei um jeitim de ganhá um dinhêrim.
- Êhh cumpade. Cuma vai sê isso? Num vai se metê in increnca!
- Vô não cumpade; me iscuta: cuma o guverno vai distribuí as fôia pra fumá, ele vai tê de comprá de quem pranta. Cuma nós semo agricutô nós pranta pra vendê pra ele. Quem sabe inté o Banco do Brasí impresta o dinhêro do custei. Cuma pra vendê pru guverno tem qui tê uma tar de concorrença, eu já pensei in falá cum o deputado federá(aquele qui toda inleição vai na casa de nós pidi voto) mode arranjá um jeitim di cavá uns poço mode aguá as pranta, pois pricisa de aguação. Ele mermo pode inté dá uma mãozinha pra nós vendê o qui prantá, se nós prometê os voto da famía. Dissero qui já tem arguns deputado interessado. Uns diz qui vai gerá imprego i renda. Só assim nós tira o pé da lama.
- Cumpade Chico, o finado meu pai sempre dizia qui irmola grande o cego discunfia. Fiquei aqui maginano no resurtado disso tudo. Cuma é qui o guverno vai pagá essas conta se farta verba pra tudo? As puliça istaduá e fiderá tão in crise pru farta de verba. As estrada tão se acabano, os hospitá num tem remédio, as iscola farta merenda, professô(tombém cum a mizera qui ganha) e cartêra mode os aluno sentá. Os pobe cada vez mais pobe e se acabano de fome. Se nós vai pro hospitá(qui Deus nos livre) as infermêra diz que num tem nem um cachetim pra tumá, pru mode um tar de SUS num tê dado o dinhêro pra pagá as conta. Adispôs disso tudim, donde o guverno vai arranjá dinhêro pra dá droga prum bocado de cabra qui num faz nada? O pió é qui nós dêxa de prantá feijão, arroiz, mio, batata, melancia e girimum pra sustentá nossa famía. Nós vamo comprá a quem, se todo mundo arresorver prantá a tar de “erva mardita”? O nome já tá dizeno: ”MARDITA”. Se isso acuntecê esse tar de projeto fome zero vai se torná “FOMIZERA”. As água dos açude e dos barrêro, qui selve pros bicho bebê, vai tudo secá. Aí nóis tem qui vendê toda criação, as vaquinha, as cabra, as uvêia e inté as galinha. E o poiquim qui a muié ingorda pra nós cumê na virada do ano novo? E aqueles qui tão preso pruque prantava? Será qui num vão atrás de adevogado pra sortá eles? Se num é mais improibido num tem mais crime. E os qui tivero as terra tomada, vão tê de vorta? Vai sê tanta ação contra o guverno cobrano prijuízo. Não cumpade, num me bote nessa não. Prifiro sustentá meus fio do jeitim qui meu finado pai, qui Deus o tenha, mi insinô; cum honestidade, respeito e trabaio dereito. Vô continuá prantano minha rocinha e cuidano da minha criaçãozinha e insinano meus fio a sê gente dereita e nunca dexá a iscola, pois a gente só vale o qui sabe. Eu aprindí qui num se discobre um santo pra mode cubri ôto nem se tapa o só cum u’a penêra. Tem munta famia chorano ainda a perca dos parente qui morrêro pru conta dessa disgraça. Eu num vô fazê parte dessa mardição não. Adispois Deus me castiga. Eu quero é vivê in paz. A corda só rebenta do lado mais fraco. O meu burrim é munto piqueno pra tanta carga. -É cumpade Zé; acho qui você tá certo! Vamo isquecê isso. Pedim, bota mais duas e traga uma buchada de bode pra nós apriciá! Saúde cumpade!
- Saúde pra nós e toda famia brasilêra.
Petró.´.
João Pessoa – PB
05/11/2003
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João Pessoa – PB
05/11/2003
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