terça-feira, 14 de agosto de 2007

CONVERSA DE MATUTO II - Desarmamento




Chico da Barra sempre ia à cidade para fazer feira, visitar parentes, levar uma galinha, gorda de chiqueiro, para um amigo, vender alguma criação ou produtos de sua roça.
Gostava muito de conversar e sempre se demorava numa rodinha de bate-papo, sobre qualquer assunto. Era conhecido como um homem prosador.
Zé do Pacuti era mais ponderado, vivia mais da roça para casa, onde, antes do advento da TV, se deitava numa preguiçosa, para ouvir notícias e forró pé-de-serra, no seu rádio ABC-Canarinho-A Voz de Ouro, comprado com o produto da venda de algumas ovelhas.
Quando a energia elétrica chegou ao seu sítio, por democrática pressão da mulher e dos filhos, vendeu uns bichinhos e comprou uma televisão, com parabólica e tudo, num consórcio que apareceu por lá, em 10 pagamentos sem juros. Todo mês se vendia um porco, uma ovelha, um garrote e se deu um jeito até terminar a dívida. No começo ele achou meio esquisito porque nunca aparecia sanfoneiro dos bons e nem violeiros, seus programas preferidos (No Terreiro da Fazenda, na Rádio Alto Piranhas e Violas e Violeiros na Rádio Rural de Caicó). Mas logo passou a ver telejornais, Canal do Senado, da Câmara, Globo Rural e concluiu que fizera um bom negócio. A rotina continua e, como sempre, no domingo o bate-papo na venda de Pedrinho era sagrado. Todos gostavam de ouvir suas opiniões, sempre arrematadas de sabedoria, apesar de ser um homem iletrado.
Chega o Domingo e Zé, após o programa Globo Rural, toma o banho, sela a burra “Melada” e se dirige à venda de Pedrinho. Ao chegar amarra o animal, junto com os outros, debaixo do pé de cajarana (no sertão são raras as casas que não têm um pé de cajarana no terreiro), afrouxa a cilha, guarda as esporas e se dirige à casa, saudando a todos ao entrar: - Bom dia pra todo mundo!
- Bom dia cumpade Zé (na roça todo mundo é compadre), responde o coral que era composto de Pedrinho, João de Seu Né, Joca Malaquias, Toinho de Cirilo, seu Abdias, Mané ferreiro, Zuzu, Tião de Elias e Ciço de Fausto.
- Cumpade Chico da Barra inda nun chegô?
- Tá chegano; daqui tô uvino as pisada do animá dele.
- Intonce bote u’a bicada pra mode alimpá a güela!
Enquanto Chico da Barra amarra seu animal, a conversa se restringe a perguntar pelas comadres, afilhados, recomendações às famílias e sobre a saúde dos mais velhos.
O Chico entra e se repete o ritual de saudações e boas vindas, enquanto Pedrinho põe mais uma bicada para o recém chegado.
Quem inicia a conversa é Mané ferreiro, mãos calejadas de acionar o fole e bater o malho na bigorna, no acabamento de enxada, foice e armador de rede.
- Cumpade Chico, nuvidade pela rua?
- É cumpade Mané, tem! O qui eu uvi pru lá é de u’a leis, qui vem loguin, mode acabá cum u uso de arma di fogo, de quarqué qualidade. Quem fô incrontado armado vai preso. Diz-se qui vão tumá inté as ispingarda.
- Ôxente cumpade, inté as de soca-soca?
- Tombém cumpade; si é impruibido caçá num carece di ispingarda. Si nóis quizé cumê um preazin, galinha dágua, marreca ô ribaçã, tem qui sê no fôjo ô arapuca. Agora o negóço é séro; pegô armado, cadêa. Vai sê bom pru mode agora nóis vai pudê andá sem sobrosso. Do jeito qui tá num tá dano certo não. Todo mulequin tem um revorve ô u’a pistola. Pru quarqué mutivo manda bala. Ninguém arrespeita mais ninguém. Mas agora vai amiorá, si Deus quizé. Cabra qui andá armado agora si oriente. Inté as fábrica do país vai sê controlada pelo guvêrno. Pôcas pessoa vai pudê comprá arma, e assim mermo si tirá licença. Pedin, mais ôta.
Todos passaram a comentar a nova lei, elogiando o governo e acreditando que essa seria uma medida certa para diminuir a violência. Somente Zé do Pacuti permaneceu calado. Foi o próprio Chico quem o abordou:
- E aí cumpade Zé; qué qui cê acha disso? Num vai amiorá?
Zé faz um sinal para Pedrinho, mostrando os dedos, polegar e indicador, fazendo u’a abertura de 4 a 5 centímetros, que logo foi correspondido com um aceno de cabeça. Ele pedia outra lapada, no que foi atendido. Tomou um gole e tirou o gosto com uma cajarana madura e pigarreou. A expectativa era geral e ele inicia, com aquela calma peculiar ao homem da roça:
- Cumpade Chico! Inquanto cê falava eu mi alembrava do finado meu pai, que Deus o tenha (levanta o chapéu em sinal de respeito), qui dizia: Crêa in Deus qui é santo véio. Vai sê munto bom, si foncioná.
- Qué isso cumpade? Cê num acridita não?
- Pru mode qui eu havera di acriditá? Arrepare bem cumpade: Todo dia ispio na televisão os deputado e os senadô, fazeno e votano leis, qui quage tudo fica só nos papé. É leis pra isso, é leis praquilo e praquilo ôto. Quando tem u’a qui é a favô dos pobe, demora um monte di ano pra mode chegá. Cumpade, o guvêrno pode controlá as fábrica do Brasí pru mode qui ele tem cuma fiscalizá pelos livro. Ele pode invitá a venda de revorve, pistola e ispingarda. Mas cuma vai controlá as venda dos ôto? Hoje in dia quem pissuí essas arma é mermo qui nada. O qui mais si vê é u’as tar de metraiadôra, granada, fuzí qui dispara quage mil tiro pru minuto, um tar de erre quinze(mas acerta vinte). Tem arma qui dirruba inté avião. Os cabra tão mais armado qui a puliça e o inzelço. E donde vem essas arma? Do contrabando. O Brasí tem num sei quantas légua di frontêra cum ôtos país, quage sem fiscalização. Ôto dia foi preso um vendedô di rede, qui virô assartante, qui falô qui trôve um fuzí du Paraguai, na camioneta, debaxo das rede. Pra comprá e trazê é a coisa mais fáci. Num tem tanto fiscá pra tanta gente. Isso insfacilita a bandidage. Num adianta fazê leis si num tem quem fiscalize. A coisa tá tão fáci pros bandido qui tem inté gente qui veve di alugué di arma. Do jeito Qui nóis aluga um tratô mode cortá as terra, eles aluga arma mode assartá. Agora é qui eles vai ficá mais afoito. Eu tô inté pensano nos veinho qui vai pra rua arrecebê o dinhêrin do aposento. Vão tumá tudo no mêi da istrada. As arma qui esses cabra usa é tudo istrangêra; da Améica du Norte, di Israé, da Russa... do Brasí é qui num tem. E aí, quem vai controlá a vendage dessas arma?
Nessa hora seu Abdias interrompe:
- Ô cumpade, parece qui ocê tá contra? Num vai sê u’a coisa boa?
Novo sinal para Pedrinho, nova bicada e atenção voltada para Zé.
- Não cumpade Abdia, eu num sô contra, sô munto a favô, mas só tem um jeito pra mode dá certo! Parecia que haviam ensaiado, mas todos perguntaram ao mesmo tempo:
- I qualé cumpade?
Calmamente Zé toma sua bicada, chupa outra cajarana, enquanto a buchada não vem, e retoma a palavra:
- Meus amigo i cumpade, cês sabe qui eu num sô homi di letra, pru mode meu finado pai, qui Deus o tenha, num tê cundição di mim mandá pra iscola. Só aprindi fazê meu nome e u’as continha. Tombém pra midí braça di cêica e carculá arrôba di boi, inté qui num foi difíci. Mas u’a coisa ele sempre dizia: Si Deus deu pra nóis dois uvido, dois ôio e u’a bôca, é pra nóis iscutá munto, ispiá munto e falá pôco. É purisso qui eu fico qui nem caboré, só prestano atenção. Apois bem, hoje in dia a moçada nova acha qui o bom da vida só é festa e rôpa bunita. Munta gente qué tê um bom imprêgo, mas trabaiá qui é bom, nada. Nos tempo antigo só tinha as quato festa do ano: Carnavá, Sumana Santa, a Padroêra e o Natá, imendano cum o ano novo. No carnavá nóis ia na rua só ispiá os broco na rua. Eu num gostava munto pru mode que tinha medo di papangu e do mela-mela. Na sumana santa nóis ia pra igreja rezá e adispois matá o juda. Na festa da padroêra era mió: tinha leilão, quermessa, carrocé e munto cumê. No natá a missa do galo e no ano novo a missa da passage, adonde nóis aproveitava pra ispiá pras minina, piscá os óio e vê os amigo qui morava mais longe. Nos sítio nóis tinha as farinhada, pra cumê bejú, os ingém di rapadura, pra puxá arfinin, tumá garapa e cumê rapa di gamela. Ô intão as disbuia di feijão, cum monte di canjica, pamonha e brôa di mio. Vêis pur ôta um forrozin, animado pur Chico Véio tocadô, no terrêro di chão batido e agüado, mode num fazê puêra. Hoje tá tudo deferente; os forró num tem mais sofona, nem zabumba, nem pandêro e nem triângu. É um magote de cabra cuns braço chei di pintura, brinco nas urêa, nos óio e u’as cabôca cum u’as sainha bem piquinininha, si rebolano, amostrano a bunda e dizeno qui aquilo é dança di forró. Sabe quem tem mais curpa nisso? Os político. Ispia só: inventaro uns carnavá fora di tempo; é micaroa, micarandi, fortá, carnatá, ricifulia e o diabo a quato. Todo mêis tem festa cum as banda cara. E quem paga? As prefeitura, os político. As vêz dêxa inté di pagá us salaro dos pobe foncionaro, mode pagá essa banda, qui só toca cum dinhêro na mão, pru que num cunfia in ninguém. Aí os pobe fica tudo inludido; compra as rôpa, cara e fiado, mode num perdê a festa. Pra í a essas festa tôda, carece gastá um bucado; e donde tirá a gaita? Termina tirano dos pai, dos avô apusentado e, quando farta, termina robano, assartano e fazeno tudo qui num presta. O qui os político, prefeito, diputado e guvernadô, divia fazê era amiorá as iscola e o aperparo dos professô. Si insinasse prus menino, derna di piquininin, o qui é dereito e errado, arrespeitá o dereito dos ôto, qui o home só é home quando é honesto i trabaidô, a coisa era deferente. O qui acuntece é qui muntos professô e professôra num sabe cuidá nem de seus fio, quanto mais dos fio dos ôto. Tem pai e mãe qui diz qui num tem tempo pra dá inducação pros fio e dêxa pras iscola insiná. Tem casa qui quem manda é os fio. Eles num arrespeita pai, mãe, avó, avô e nem ninguém. Os pai diz que num dá uma parmada pru mode o bichin num ficá tramatizado i crecê inelvoso. É o qui eles qué e assim nunca vai aprendê. Quando eu fazia um má feito, meu pai me dava u’a lamborada cum arriadô di bizerro ô um cipó di marmelêro e dizia pru que tava bateno e insinava cuma era o certo e eu nunca fiquei tramatizado nem inelvoso. Inté hoje eu agradeço ele tê mi insinado assim. Uns diz: mas os tempo mudô! É mudô mermo, purisso que tá essa baraiada doida. Esse negóço di famia num inziste mais não. É cada um pru seu lado e o resto qui si dane. Ocês cunhece Dedé, fio di seu Severino? Ôto dia eu tive lá na Santana e ele tava insinano prus fio dos moradô. Fiquei ali ispiano a manêra cuma ele ispilicava, tudo dereitin, e os minino tudo iscutano cum a maió atenção. Adispôs nóis fiquemo prosiano no arpendre da fazenda e preguntei: Dedé, ôcê mora na rua, istudô, hoje é dotô e nos fim de sumana vem dá escola pra esses minino?. Ele ispiô bem nos meus óio e falô sirrino: - Seu Zé, a inducação é a coisa mais importante pru home. Há 2.500 ano um home falô: Dê inducação pras criança pra num pricizá castigá os adurto.
Eu fiquei sem intendê nada, mas ele ispilicô: - Se nóis aprendê quando é minino, num vamo fazê errado quando ficá home feito. Ai eu intendi tudo dereitin. Eita home sabido! Naqueles tempo já tinha home assim? Cuma o mundo é véio! Ôcês arrepare cuma tá a situação de hoje: as puliça dento dos quarté, cum medo, e os bandido meteno bala pra tudo qué lado. É aquela histora do dia da caça e do caçadô. O caçadô iscondido e a caça fazeno a festa. Bem qui os antigo dizia: a roda grande vai passá pru dento da piquena(palava do Padim Pade Ciço do Juazêro).
Pois é, meus amigo, num adianta criá leis pra mode cunsertá o qui vem dirmantelado de munto tempo. As providênça tem qui sê ugente si não nós num vamo tê o dereito nem de si arreuni aqui in Pedin pra disanuviá a cabeça das preocupação. O remédio é aperpará as criança di hoje pra mode sê os home di amenhã. Nun adianta butá us pôico pra fora da roça si num tapá o buraco da cêica; eles vorta ôta vêis. – Pedin, mais u’a!
Todos acenaram com a cabeça, com ar de aprovação, enquanto Toinha, esposa de Pedrinho, chegava com uma buchada fumegante, cozida na panela de barro, no fogão de lenha.
Joca Malaquias foi quem rompeu o silêncio:
- É cumpade, si nóis num tumá tento nóis cai do cavalo; a coisa mais bunita do mundo é u’a famia arrespeitada.
- É isso mermo cumpade, qui Deus potreja nóis e nossas famia. Falou Zuzu.
- Amém; responderam todos.
Chico acabara de tirar a linha da buchada, todos brindaram e continuaram com o bate-papo, falando de negócios e contando piadas. Foi mais um dia de aprendizado para aqueles homens tão simples e tão cheios de esperança, que confiam sempre na Providência Divina, no porvir de dias melhores.


Petronilo Pereira Filho
João Pessoa-PB 15/11/2003

Um comentário:

Luzcar disse...

Em meio à violência
Do mundo de hoje em dia,
Em prosa, vejo poesia
Expressa com experiência!
Vejo saber e ciência
Neste simples linguajar!
Vejo um Brasil se formar
Da conciência do povo,
Viva o velho e Viva o novo,
Na Cultura Popular!

Meu Compadre e Meu Mestre Petronilo, só quem não te conhece é que não te compra!...

Obrigado, por tanta beleza!

Fraterno abraço,
Compadre Lemos.