terça-feira, 14 de agosto de 2007

CONVERSA DE MATUTO III - A Transposição




Era final do primeiro semestre no sertão. O mato ainda verde, açudes com pouco mais da metade de água e a criação mais ou menos gorda. A paisagem apresentava a beleza do sertão, no final do inverno, que quando vem em abundancia transforma todo o sertão em um quadro de rara beleza, com agricultores satisfeitos, aves cantando e o fenômeno anual da chegada dos bandos de arribaçãs, que nessa época vêm se alimentar das sementes produzidas nas caatingas nordestinas.
O inverno, é assim que o sertanejo chama o período das chuvas, tinha sido irregular. A colheita da lavoura havia se perdido em boa parte. Chuvas fora de época acumularam água nos açudes e mantiveram o pasto verde, criando alimentação para o gado, e as ovelhas, que daria para sustentar alguns meses. Era a seca verde.
Foi num dia desses, domingo, dia claro, céu azul com o sol brilhando intensamente, que os amigos se reuniram, como faziam todos os domingos, na bodega de Pedrinho. Para eles, homens trabalhadores, era o dia mais esperado para botarem a conversa em dia e esquecer os dias duros na roça, com umas boas bicadas de cachaça.
Chico da Barra chega e já encontra todo mundo no maior bate-papo.
- Bom dia!
- Bom dia cumpade Chico! Demorô um pôco – falou um deles.
- É cumpade Ciço; é qui eu tive de ajeitar u’as coisinha lá in casa. Você sabe, a invernada num foi boa pra lavora e a gente tem de se virá mode num passá aperrêi.
- O cumpade foi inté na rua essa sumana, nun foi? Trove argu’a nuvidade?
- Ah, cumpade, truve sim. O qui si fala, pur u’a boca só e nu’a tar di transpusiçao, qui vai sarvá nois. Se esse negóço foncioná mermo o sertão vai mudá, mas mudá pra muito mió.
- Ispilica isso mió cumpade, pra nóis intendê dereito – falou Zuzu.
- É o siguinte: Os político, junto cum o guverno federá, tão lutano mode trazer água do río São Francisco, mode agüar o sertão e acabá cum a seca no Nordeste. Tem um senadô, aqui de nóis, que ta lutano cum unhas e dente mode isso saí dos papé pra as obra. Eles vão cavá u’as levada bem grande e tirá as água do São Francisco e jogá nessas levada, qui vai chegá nos rio seco dos sertão. Daí é só o agricutô usá essa água. Tombém as cidade vão tê água incanada e ninguém mais vai passá sede. Oia meus amigo, tão dizeno qui nós nun vamo mais passá fome e qui vamo tê ligume o ano intero. Parece qui as proficia do Biato vai chegá: O sertão vai virá mar. Nun vai sê u’a beleza?
Todos aprovaram e elogiaram a iniciativa do governo. Finalmente uma esperança para o sofrido sertanejo, que luta contra a fome e a miséria há séculos. A seca seria coisa do passado.
O clima de alegria contagiou a todos, que já faziam planos para o futuro. Somente Zé do Pacuti não parecia tão entusiasmado, o que foi percebido por Chico da Barra.
- E aí cumpade Zé, qué qui você acha disso tudo, nun vai sê bom?
Zé toma um gole, pigarreia, dá uma bicada no copo de caldo de feijão verde, bem temperado com coentro e nata, e fala com calma:
- Cumpade Chico, quando eu era piqueno meu avô dizia qui o pai dele já falava nessa cunversa de mode trazê água do rio São Francisco. Ele dizia que o imperadô Dom Pêdo, prometeu qui vendia inté as jóia da coroa, mas os irmão do Nordeste num passava fome. Já faz mais de cem ano, a coroa ta lá num tar de museu, cum todas as jóia e o sertanejo sofreno os aperrêi da seca. O Nordeste tem muitos açude e cum muita água, qui se fosse usada dereito num tinha tanta fome. O açude de Orós, no Ciará, é um dos maió das redondeza e num dêxa o rio Jaguaribe secá. O de Curema, aqui perto de nóis, esbastece o rio de Piranha, faz mais de setenta ano, sem contá, aqui bem pertim, cum os açude São Gonçalo, Buquerão e Lagoa do Arroz. Arrepare bem: nas bêra desses rio munta gente ainda passa fome, mermo cum munta água na porta. Nas bêra do São Francisco num é munto deferente. Todo ano tem reportage na televisão falano da fome na Baía, Minas, Pernambuco, Alagoa e Sergipe. Todos esse estado fica na bêra do São Francisco e a miséra continua lá derna de muito tempo. O pobrema num é trazê a água, é insiná cuma se aproveita. Vamo vê: O rio de Piranha, derna de Curema inté a divisa cum o Rio Grande do Norte, passa pelas cidade de Pombá, Paulista e São Bento. Nas bêra do rio num tem ninhum agricutô rico; a maioria é piqueno qui nem nós. As agricutura qui se pranta inté lá é mode sustentá as famia e o gado de criação deles. Quando chega no Rio Grande a coisa muda de figura pru mode qui o guverno de lá já ajuda arguns agricultô, orientado pelos agrome da Imaté. Lá tem região qui ta vendeno fruita pra fora, inté pra ôtos país.
Na bêra do São Francisco, no sertão de Pernambuco, tem muita coisa prantada, e os agricutô tão fazeno vinho, da mió qualidade, e vendeno fruta pras Oropa, só qui isso num vem do guverno, são os home rico do sú que truvero dinhêro, compraro terra e começaro a produzí. Os piqueno veno aquilo começaro a fazê o mermo, mas cuma num tinha capitá fizero acordo cum os rico mode vendê a produção pra eles. Continuaro vendeno prus atravessadô. Meus amigo, essa histora de sarvação do Nordeste é coisa véia, qui vem seno apromitida de muntos e muntos ano. Inté hoje só quem se saiu bem cum isso fôro os político, cum a famosa industa da seca.
Um dia desse, minha fia qui istuda na capitá, na casa do meu primo Damião, vêi passiá aqui e trove um jorná cu’a notiça triste. Cuma eu sou fraco de leitura ela leu pra mim: Jorná Corrêi da Paraiba, 10 de junho de 2001; água bundante num agarante produção. Falava de um agricutô qui morava na Acauã, no finá do caná da redenção, aquele qui foi feito vindo do açude Curema inté nas várzea de Sousa, qui andava 18 quilome toda sumana na bêra do caná e num via um pé de nada prantado. O pió era de u’a muié qui morava na bêra do caná qui vem da lagoa do arroz, in Cajazeira, qui só usava a água pra mode bebê, tumá banho e lavá rôpa. E sabe a distânça da casa pro caná? Só cinco metro. Isso qué dizê: pôco mais de duas braça. Essa muié, apusentada, morava cum a fia e um genro. Todo mês ela ia pra Cajazeira recebê o dinhêro do apusento e comprava ôvo, verdura e frango de granja. O reporte preguntô pru mode qui ela num prantava e criava galinha, ela arrespondeu: Eu vô comprá in Cajazera pruquê o ônibu passa na minha porta e num dá nada de trabaio. Assim são muitos. Tem a riqueza na porta e num sabe o qui fazê. Nessas cidade adonde o rio passa é u’a coisa triste. Nos domingo se monta u’as barraca, puxa uns fio dos poste, liga um som, leva u’as caxa de gelo e munta bibida. O forró, qui aquilo pra mim nunca foi forró, come no centro. Mais tarde é tanto nêgo bebo, agarrado cum as muleca bêba, dançano na arêa. No finá do dia o qui sobra é munta garrafa e lata di bibida dento do rio. Fica mais pareceno o munturo das casa qui num tem lixêro.
Meus amigo, butá água na porta desse povo sem istrução é cuma cachorro qui corre atraz di carro: quando o carro pára, ele num sabe o qui fazê. Se o guverno quizé mermo sarvar nós, deve cumeçá insinano os agricutô a aproveitá a água nas lavora, cum assitença dos agrome. O cabôco sertanejo é home trabaiadô, mas de tanto aviciado pelos político disonesto, qui só aparece nas inleição, qui faz promessa e dá u’a irmola ele se acomoda e se amofina. Dê sirviço, amostre cuma se trabaia a terra, dê cundição de agüá as pranta, impreste dinhêro, mas fiscalize e cobre adispois. Se jogá água na porta dele vai cuntinuá do mermo jeito: teno água mode bebê, mas seno isplorado pelos rico. Todo mundo cunhece a musga do Rei do Baião qui diz: “Seu dotô, u’a irmola pra um home qui é são, ô li mata de veigonha ô avicia o cidadão”.
Nesse tempo a esposa de Pedrinho chega com uma panela fumegante, com bode cozido e farofa de cuscuz, enchendo o salão com um aroma que fazia jorrar água em qualquer boca.
Pequena pausa para comer e tomar mais uns goles.
- Intão cumpade Zé, você nun tá a favô dessa tá de transpusição não? – falou Mané Ferreiro, já antevendo o trabalho que iria ter com tanta enxada.
- Tô cumpade Mané e vô tá sempre. Isso vai sê a maió bença qui Deus vai mandá pra nós, mas é cuma eu lhe digo: se num orientá o povo nem fiscalizá o trabaio, vai sê mais u’a obra pra mode dá dinhêro pros político. U’a vez eu vi na televisão um cantô cantano u’a musga qui é a cara de nós. A musga falava do sertão, dos sertanejo, da crença qui temo in Deus e nas promessa dos político. No finá ele cantava: “Entra ano e sai ano e nada vem e o sertão cuntinua ao Deus dará”. Essa é a pura verdade. Esse cantô é hoje ministo. Vamo vê se faz arguma coisa pur nós. A fome e a mizéra no Nordeste só vai acabá quando os político fô home de palava e se interessá pela filicidade do povo. Quando as verba chegá intêra na obra e se acabá cum as tá de caxinha, aí sim a coisa vai amiorá, mas amiorá muito.
- E nós num pode fazê nada, né cumpade! – falou seu Abdias.
- Pode cumpade! Nós temo as arma pra mode acorrigi tudo isso.
- Qui arma cumpade, cum o disarmamento num pudemo usá nem ispingarda, ta doido?
- Não seu Abdia, num é essas arma qui tô falano não; é o tito de inleitô. Essa é a maió arma qui temo pra mode mudá tudo isso.
- E cuma vamo fazê?
- É o siguinte: se nós se ajuntá, todo mundo, e num votá in ninhum político qui tá no pudê, aí nós acaba cum a bandaiêra nesse Brasí. Nós avisa logo pros qui tão chegano: si fizer bestêra nós num vota mais in você. Adispos qui nós trocá todos os político, deputado, senadô, guvernadô e tudo qui num fizé dereitin, eles vão aprendê e a coisa muda pra mió. Já vão ficá avisado: Se robá perde o imprego. Vamo acabá cum esse negóço de voto di favô. Eles num tão fazeno favô ninhum pra nós, nós é qui tamo dando imprego pra eles. Nós samo os patrão, intonce nós é quem tem voz ativa pra eles. Nós é quem deve mandá, eles obedecê.
Todos ficaram se entreolhando com um ar de admiração e aprovação. Nunca ninguém havia dito tantas verdades. Jamais alguém havia aberto os olhos daquela gente que só tinha esperança em Deus e nos políticos. Nunca puderam imaginar que uma pessoa, nascida e criada na roça, que mal sabia assinar o nome, tivesse tanta sabedoria.
Chico da Barra quebrou o silêncio:
- É mermo, o cumpade Zé tem toda razão, nós é qui somo uns abestaiado, mas vamo mudá isso. Na primêra inleição eu vô amostrá pra esses cabra cum quantos pau se faz u’a cangáia.
- E nós tombém, num é pessoá? – falou Toinho de Cirilo.
- Éééé! Gritaram todos.
A essas alturas Pedrinho já estava gritando para Toinha, sua esposa, para trazer outra panela de bode com farofa de cuscuz, temperada com o caldo do bode, cebola, tomate e coentro, tirados da pequena horta no quintal de casa, enquanto abria mais uma garrafa da “danada”, para alegria geral.
Naquele dia foi dado o primeiro passo para acabar com a miséria no Nordeste e a corrupção no Brasil. Nascia ali a campanha de esclarecimento que poderia mudar um quadro secular, sem violência, dentro da mais pura democracia. Era o eleitor exercendo seu direito de cidadão. Era a esperança nascendo, de novo, nos corações das pessoas mais sofridas e discriminadas no Brasil, mas com muita força e fé em Deus.

Petronilo Pereira Filho
João Pessoa, 2005-05-12

5 comentários:

Luzcar disse...

Caro Copmpadre Petronilo,

Estou simplesmente de "queixo caído" com:
Tanta simplicidade,
Tanta sobriedade,
Tanta consciência social,
Tanto conhecimento da realidade nordestina...

E por conhecer o Compadre em um novo estilo, que é a prosa!

Este Blog vale a pena, e pode contar comigo, para divulgar!

Fraterno abraço,
Compadre Lemos.

Estrela Dourada disse...

Meu caríssimo Irmão!
Parabaéns pela simplicidade dos textos.
E assino embaixo as palavras de seu compadre.
Alberto L.

Luzcar disse...

"O Sertão vai virar mar,
O mar vai virar Sertão"
Já canta assim o refrão
Da cantiga popular!
Mas... parando pra pensar,
Só muda mesmo é o nome,
Porque fome é sempre fome,
Seja da seca ou molhada,
Sem Educação, é nada,
Toda água que jorrar!

Meu Compadre e meu Mestre Petronilo, o poeta ( e sua prosa é poesia!) é a "caneta de Deus" escrevendo pra os olhos do homem.

Esta é sua sina e sua bênção!

Louvado seja!!!

Fraterno abraço,
Compadre Lemos.

José Ricardo disse...

Boa noite Petró,

- Parabéns. Recebemos de DEUS, o raciocínio, o poder da palavra, e você consegue colocar dentro delas, fazendo-as de roupa, os lindos sentimentos que tens com relação às coisas do sertão.

- São lindos os textos e as imagens que consegues criar em nossas mentes. Como se suas palavras e sentimentos fossem chuva abençoada, fazendo brotar no solo esturricado pelas intempéries da vida, a abundância do verde que todos necessitamos, a esperança que nos mantêm.

Zé, um companheiro de caminhada

Angela Arlene disse...

Caríssimo Petró,

obrigada por dividir conosco suas vivências, seus pensamentos, seu talento e seu modo tão peculiar de contar essa coisas prá "nóis".
Beijão "procê", amigão,
Angela
Teresina (PI)