domingo, 12 de agosto de 2007

CONVERSA DE MATUTO



Drogas

Em toda comunidade rural sempre tem uma vendinha, onde se compram as coisas mais básicas para uma família de agricultores(café, açúcar, farinha, temperos, linha, agulha e outras coisas que não se produzem na roça(principalmente bebidas). Sempre tem uma área com uma mesa e tamboretes, para, nos fins de semana, os fregueses se sentarem para um bate papo, regado a cachaça. O tira-gosto varia de galinha de capoeira, preá torrado, rolinha, nambú e, do segundo ao terceiro trimestre, arribaçã frita na banha de porco(quando os fiscais do IBAMA não aparecem). Tem peixes(traíra, curimatã, corró e tilápia), buchada e mondrongo de porco).


A conversa gira em torno de política, produção agrícola, inverno, criação de animais e preços da safra. Alguns que vão até à cidade, sempre chegam com novidades. Foi o que aconteceu com Chico da Barra, ao chegar na venda, de Pedim de Sinhora, no sítio Timbaúba, para molhar a garganta e encontra Zé do Pacutí:
- Bom dia cumpade Zé!
- Bom dia cumpade Chico! Teve na rua? Arguma nuvidade?
- Tive cumpade, e uví umas conversa que me dexô incabulado.
- E o qui foi qui te dexô incabulado, cumpade? – Falou o Zé com ar de curiosidade.
- É o siguinte: me dissero qui tem um juiz de dereito, lá pas banda do su, defendeno a distribuição de droga(aquelas coisa de cigarro, pó, injeção, qui dêxa o cabra mei doido) e tudo de graça, pru conta do guverno.
- Vixe Maria! Esse juiz indoidô? Nun tá veno qui isso num vai dá certo? Cuma é qui o guverno vai comprá? Dos traficante? Mas a puliça num tá prendeno tudo qui é traficante? Acho qui quem vai indoidá é eu cumpade.
- Bom, o qui dissero é qui no istrangêro, lá pas Oropa, já tão fazeno isso. Se o guverno distribuí de graça ninguém compra dos traficante e a puliça vai tê menos trabáio e o aviciado dêxa de robá, ô inté matá os pai mode pegá dinhêro pra comprá a danada. Eu inté já maginei um jeitim de ganhá um dinhêrim.
- Êhh cumpade. Cuma vai sê isso? Num vai se metê in increnca!
- Vô não cumpade; me iscuta: cuma o guverno vai distribuí as fôia pra fumá, ele vai tê de comprá de quem pranta. Cuma nós semo agricutô nós pranta pra vendê pra ele. Quem sabe inté o Banco do Brasí impresta o dinhêro do custei. Cuma pra vendê pru guverno tem qui tê uma tar de concorrença, eu já pensei in falá cum o deputado federá(aquele qui toda inleição vai na casa de nós pidi voto) mode arranjá um jeitim di cavá uns poço mode aguá as pranta, pois pricisa de aguação. Ele mermo pode inté dá uma mãozinha pra nós vendê o qui prantá, se nós prometê os voto da famía. Dissero qui já tem arguns deputado interessado. Uns diz qui vai gerá imprego i renda. Só assim nós tira o pé da lama.
- Cumpade Chico, o finado meu pai sempre dizia qui irmola grande o cego discunfia. Fiquei aqui maginano no resurtado disso tudo. Cuma é qui o guverno vai pagá essas conta se farta verba pra tudo? As puliça istaduá e fiderá tão in crise pru farta de verba. As estrada tão se acabano, os hospitá num tem remédio, as iscola farta merenda, professô(tombém cum a mizera qui ganha) e cartêra mode os aluno sentá. Os pobe cada vez mais pobe e se acabano de fome. Se nós vai pro hospitá(qui Deus nos livre) as infermêra diz que num tem nem um cachetim pra tumá, pru mode um tar de SUS num tê dado o dinhêro pra pagá as conta. Adispôs disso tudim, donde o guverno vai arranjá dinhêro pra dá droga prum bocado de cabra qui num faz nada? O pió é qui nós dêxa de prantá feijão, arroiz, mio, batata, melancia e girimum pra sustentá nossa famía. Nós vamo comprá a quem, se todo mundo arresorver prantá a tar de “erva mardita”? O nome já tá dizeno: ”MARDITA”. Se isso acuntecê esse tar de projeto fome zero vai se torná “FOMIZERA”. As água dos açude e dos barrêro, qui selve pros bicho bebê, vai tudo secá. Aí nóis tem qui vendê toda criação, as vaquinha, as cabra, as uvêia e inté as galinha. E o poiquim qui a muié ingorda pra nós cumê na virada do ano novo? E aqueles qui tão preso pruque prantava? Será qui num vão atrás de adevogado pra sortá eles? Se num é mais improibido num tem mais crime. E os qui tivero as terra tomada, vão tê de vorta? Vai sê tanta ação contra o guverno cobrano prijuízo. Não cumpade, num me bote nessa não. Prifiro sustentá meus fio do jeitim qui meu finado pai, qui Deus o tenha, mi insinô; cum honestidade, respeito e trabaio dereito. Vô continuá prantano minha rocinha e cuidano da minha criaçãozinha e insinano meus fio a sê gente dereita e nunca dexá a iscola, pois a gente só vale o qui sabe. Eu aprindí qui num se discobre um santo pra mode cubri ôto nem se tapa o só cum u’a penêra. Tem munta famia chorano ainda a perca dos parente qui morrêro pru conta dessa disgraça. Eu num vô fazê parte dessa mardição não. Adispois Deus me castiga. Eu quero é vivê in paz. A corda só rebenta do lado mais fraco. O meu burrim é munto piqueno pra tanta carga. -É cumpade Zé; acho qui você tá certo! Vamo isquecê isso. Pedim, bota mais duas e traga uma buchada de bode pra nós apriciá! Saúde cumpade!
- Saúde pra nós e toda famia brasilêra.




Petró.´.
João Pessoa – PB
05/11/2003
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8 comentários:

Seu Ribeiro disse...

Salve, Mestre!
Vim aqui recomendado pelo Compadre Lemos e fiquei muito feliz com o que vi! Estou com o cumpadi, meu burrinho também é muito pequeno pra tanta carga.

Sucesso nesta nova e bendita empreitada!

Seu Ribeiro

Luzcar disse...

Meu Compadre Petronilo,
Deus, na sua Onipotência,
Senhor de Toda Ciência
Abençoe o seu estilo!
Falando disso e daquilo,
Na sua simplicidade,
Dizendo só a verdade,
Ensina que principia
No Povo, a Sabedoria
De toda a Felicidade!

Continuo encantado, Compadre!
Deus te abençoe!...

Fraterno abraço,
Compadre Lemos.

Luiz Tarciso disse...

Meu Compadre Petronilo
que é do Banco aposentado
mas não quis ficar sentado
e aprimorou seu estilo
sua rima anda no trilho
e é bem metrificada
cada linha é bem contada
este poeta não se perde
Que dele o sertão herde
a poesia bem rimada

Luiz Tarciso disse...

Compadre Petronilo,
Nosso Compadre Lemos foi quem recomendou.
Abraço aos dois.
Tarciso Coelho.

valdir disse...

Prezado Petronilo:
Meus respeitos e minnha admiração de um matuto para outro matuto.
Recebas um abraço de parabéns do

Matuto brasileiro

Sou nordeste Suassuna
Sou Brasil Darci Ribeiro
Pernambuco de Allan
Sou Caruaru primeiro
Seguidor de Gonzagão
Sou agreste sou sertão
Sou matuto brasileiro

Sou defensor de Leandro
Sou cordel sou vaquejada
Sou do sítio e da cidade
Sou vaqueiro sou boiada
Sou o trigo, sou o joio
Sou um grito de aboio
Em noite enluarada

Sou doutor e analfabeto
Sou político e eleitor
Ambulante e violeiro
Sou poeta e trovador
Das Tabocas sou Vitória
Sou Juazeiro sou Glória
Sou caboclim sonhador

Walter disse...

Mano véio, cabra arretado, agora consegui acessar. Vou precisar ler tudo com calma, mas gostei do que já li.
Muito bom. Parabens.
Abraço grande.
Zoccoli

LuisAugusto disse...

Meu querido Irmao, muito bemfeito, tudo que vc aqui postou. Ah! Eu tenho aqui em casa um mandacaru, que eu troxe da minha visita a Juazeiro=BA/Petrolina=PE, em 2003, só que o danado, nao desenvolve. Algum critério pra ele crescer? O mesmo esta dentro de uma vasilha de plastico,desde que chegou. Fraternalmente. Luis Augusto/Niquelandia, Goias.

Anônimo disse...

ola seu petró
muito legal tbm sou do sertao
amo isso!!!!!!!
to deixando meu msn arnobio_lustosa@hotmail.com
mande noticias abraço!