
Durante os anos de 1976 a 1979 as chuvas no Nordeste foram dentro da média. Naquela época o bicudo ainda não tinha aparecido e a lavoura principal era o algodão. O Banco do Brasil era o principal agente financeiro do agricultor e os créditos eram mais fáceis do que hoje. Havia empréstimo para tudo. Os principais eram os chamados “melhoramentos”, destinados a investimentos na terra, principalmente cercas, o custeio agrícola, que era destinado ao plantio e trato das lavouras e o comercial, para as despesas mais urgentes. Foram anos de fartura e dificilmente se via um agricultor inadimplente.
Foi nessa época que fui nomeado para ser supervisor da agência, em instalação, na cidade de Conceição-PB. O movimento começou devagar, mas logo foi crescendo e em pouco tempo tínhamos uma grande clientela e chegamos a mais de trinta funcionários. Na época das propostas da Carteira Rural era um sufoco; a agência enchia de clientes e tínhamos que pedir reforço à Direção Geral que socorria mandando funcionários adidos.
Os financiamentos de custeio eram para plantar algodão, milho e feijão. O algodão era logo vendido depois da colheita, o milho e o feijão eram armazenados para o consumo e o excedente seria vendido à medida das necessidades. Com a venda do algodão o agricultor comprava de boi magro, jogava na roça, para aproveitar a folha do algodão, que era uma excelente ração. No final do ano vendia uma parte dos bois, pagava o custeio e sobravam algumas cabeças para aumentar o rebanho. Porém, aqui e ali, um deles se atrapalhava com os cálculos e tinha que recorrer ao banco para sanar a situação. Foi numa dessas que certo dia aparece um senhor baixinho, de cor negra, cabelos bem grisalhos, com o chapéu cobrindo o peito (é uma maneira que o roceiro tem para demonstrar respeito) e disse que queria falar com o gerente. O colega que o atende faz as perguntas de praxe:
- O que o senhor deseja?
- Fazê um cumerciá!
- O nome do senhor?
- Sebastião Carneiro de Arruda
- Sítio?
- Sítio Carranca, manicipe de Santana de Mangueira!
-Aguarde só um instantinho!
O colega vai ao arquivo pega o dossiê e a ficha cadastral e leva ao gerente(na época era Paulo Oliveira Lima), que em pouco tempo chama o “seu” Sebastião. Ele entra, cumprimenta o gerente, e se senta.
- O senhor quer fazer um comercial para quê?
- É que chegô a hora de pagá o agrica e os boi inda num tão bom de vendê. Intão me dissero que fazeno um cumerciá dava pra mode aliviá a situação inquanto as coisa amiora!
- Tudo bem. Vamos ver o que podemos fazer!
Paulo olha a ficha, o dossiê, pergunta quem são os avalistas, manda preencher a promissória e sai tudo dentro do figurino. Seu Sebastião volta com a promissória assinada, a operação é realizada, o custeio liquidado, e ele sai satisfeito do banco, com um sorriso de um lado ao outro.
Cento e vinte dias depois vence o comercial. Passam os dias e seu Sebastião não aparece. Um aviso de vencimento é expedido e nada. Depois vai um recado pelo fiscal para ele comparecer à agência e chega seu Sebastião, olhos grandes e bem abertos, chapéu no peito, com ar de espantado e pergunta o que o gerente quer.
- Seu Sebastião, o comercial venceu e o senhor não veio pagar!
- Cuma pagá se eu num tô deveno?
- O senhor não estava devendo o agrícola?
-Tava sim sinhô, mas num paguei cum o comerciá?
- É, mas o senhor tem que pagar o comercial!
-Cuma pagá se num levei o dinhêro? O dinhêro ficô no banco!
Foi um Deus nos acuda. O gerente tentando explicar que ele estava devendo e o seu Sebastião afirmando que não. Eu, o outro supervisor e o gerente adjunto tentamos, a todo custo fazer seu Sebastião entender, mas foi em vão. Para se resolver à questão tivemos que mandar chamar seus filhos, que venderam o gado e liquidaram a dívida, sob os protesto do pai, que foi obrigado a passar uma procuração para um deles e nunca mais pôs os pés na agência.
Petronilo Pereira Filho
João Pessoa-PB 2005-11-23 Aposentado
Foi nessa época que fui nomeado para ser supervisor da agência, em instalação, na cidade de Conceição-PB. O movimento começou devagar, mas logo foi crescendo e em pouco tempo tínhamos uma grande clientela e chegamos a mais de trinta funcionários. Na época das propostas da Carteira Rural era um sufoco; a agência enchia de clientes e tínhamos que pedir reforço à Direção Geral que socorria mandando funcionários adidos.
Os financiamentos de custeio eram para plantar algodão, milho e feijão. O algodão era logo vendido depois da colheita, o milho e o feijão eram armazenados para o consumo e o excedente seria vendido à medida das necessidades. Com a venda do algodão o agricultor comprava de boi magro, jogava na roça, para aproveitar a folha do algodão, que era uma excelente ração. No final do ano vendia uma parte dos bois, pagava o custeio e sobravam algumas cabeças para aumentar o rebanho. Porém, aqui e ali, um deles se atrapalhava com os cálculos e tinha que recorrer ao banco para sanar a situação. Foi numa dessas que certo dia aparece um senhor baixinho, de cor negra, cabelos bem grisalhos, com o chapéu cobrindo o peito (é uma maneira que o roceiro tem para demonstrar respeito) e disse que queria falar com o gerente. O colega que o atende faz as perguntas de praxe:
- O que o senhor deseja?
- Fazê um cumerciá!
- O nome do senhor?
- Sebastião Carneiro de Arruda
- Sítio?
- Sítio Carranca, manicipe de Santana de Mangueira!
-Aguarde só um instantinho!
O colega vai ao arquivo pega o dossiê e a ficha cadastral e leva ao gerente(na época era Paulo Oliveira Lima), que em pouco tempo chama o “seu” Sebastião. Ele entra, cumprimenta o gerente, e se senta.
- O senhor quer fazer um comercial para quê?
- É que chegô a hora de pagá o agrica e os boi inda num tão bom de vendê. Intão me dissero que fazeno um cumerciá dava pra mode aliviá a situação inquanto as coisa amiora!
- Tudo bem. Vamos ver o que podemos fazer!
Paulo olha a ficha, o dossiê, pergunta quem são os avalistas, manda preencher a promissória e sai tudo dentro do figurino. Seu Sebastião volta com a promissória assinada, a operação é realizada, o custeio liquidado, e ele sai satisfeito do banco, com um sorriso de um lado ao outro.
Cento e vinte dias depois vence o comercial. Passam os dias e seu Sebastião não aparece. Um aviso de vencimento é expedido e nada. Depois vai um recado pelo fiscal para ele comparecer à agência e chega seu Sebastião, olhos grandes e bem abertos, chapéu no peito, com ar de espantado e pergunta o que o gerente quer.
- Seu Sebastião, o comercial venceu e o senhor não veio pagar!
- Cuma pagá se eu num tô deveno?
- O senhor não estava devendo o agrícola?
-Tava sim sinhô, mas num paguei cum o comerciá?
- É, mas o senhor tem que pagar o comercial!
-Cuma pagá se num levei o dinhêro? O dinhêro ficô no banco!
Foi um Deus nos acuda. O gerente tentando explicar que ele estava devendo e o seu Sebastião afirmando que não. Eu, o outro supervisor e o gerente adjunto tentamos, a todo custo fazer seu Sebastião entender, mas foi em vão. Para se resolver à questão tivemos que mandar chamar seus filhos, que venderam o gado e liquidaram a dívida, sob os protesto do pai, que foi obrigado a passar uma procuração para um deles e nunca mais pôs os pés na agência.
Petronilo Pereira Filho
João Pessoa-PB 2005-11-23 Aposentado